Carlos Leite – A ideia é reinventar

Construir Nordeste 01/12/2012

(*) Por Renata Farache

Há 15 anos estudando desenvolvimento sustentável urbano e percorrendo o mundo conhecendo personagens e cidades que se reinventaram, o arquiteto e urbanista Carlos Leite é um apaixonado pelo que faz. Mestre e doutor pela Universidade de São Paulo – USP, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor do recém-lançado livro Cidades Inteligentes, Cidades Sustentáveis, Leite diz à revista Construir Nordeste que, na perspectiva de um planeta com população cada vez mais urbana, dando origem às megacidades, é preciso criar novos modelos de sustentabilidade urbana e afirma que as cidades, no século 21, são o elemento-chave para o desenvolvimento sustentável global.

O que são cidades sustentáveis?
Existem atualmente no mundo diversos exemplos de cidades autoproclamadas ou indicadas por especialistas como sustentáveis. As ações que defendem esses exemplos variam muito de acordo com as características das metrópoles e com o foco dos responsáveis pelos projetos. Com relação ao direcionamento dos executores das iniciativas, dois grupos se destacam. No primeiro, o foco são aspectos sociais para promoção da sustentabilidade urbana, como governança local, mudanças de comportamento e atitudes, revisão dos objetivos do planejamento do uso do solo, entre outros. Uma vez que muitas tecnologias que visam ao grande desempenho em aspectos da sustentabilidade ainda têm altos custos, impedindo sua utilização, a alternativa passa a ser a realização de ações visando eficiência por redução de consumo e desperdício, apoio a serviços com baixas emissões de carbono e revitalização urbana, promovendo a valorização do espaço público. A outra opção, investe em tecnologia de ponta alinhada com o conceito de smart sustainable city. São usados equipamentos e sistemas modernos para que a cidade, especialmente nos setores de energia, mobilidade e gestão de resíduos, possam alcançar altos índices de desempenho em aspectos como emissões de gases de efeito estufa e destinação de resíduos.

O senhor pode citar exemplos?
Copenhague é considerada uma das cidades mais sustentáveis do mundo basicamente por conta da ativa participação de toda a sociedade, incluindo-se o fato de 37% da população locomover-se por bicicleta e o transporte público utilizar bateria, e não combustível; 51% da comida consumida nos órgãos públicos municipais é orgânica. Portland, Curitiba e Bogotá são frequentemente colocadas entre as cidades mais sustentáveis em termos de mudanças significativas que a sociedade vem alavancando. Já Masdar, nos Emirados Árabes Unidos, está sendo planejada no meio do deserto para abrigar 45 mil moradores e 45 mil trabalhadores. O objetivo é a emissão nula de gases de efeito estufa e o reaproveitamento total dos resíduos gerados. A base para o alcance dessas metas é o uso massivo de tecnologia de ponta no planejamento da região, na geração de energia, na mobilidade e nas construções. O alto desempenho da cidade é contrabalançado pela dificuldade de replicação do modelo, pelos seus custos e pela dificuldade de encontro das condições necessárias para sua realização. A China também está desenvolvendo a sua cidade eco-friendly-high-tech, Dongtan.

Então, uma cidade sustentável não é necessariamente uma cidade inteligente?
Não necessariamente. Considero que uma cidade sustentável completa contempla oito grandes temas: Planejamento e Ordenamento Territorial; Questões Ambientais; Segurança e Inclusão; Habitação, Serviços e Equipamentos; Mobilidade; Construções e Infraestruturas Sustentáveis; Governança e Oportunidades. No tema Governança, inclui-se a questão cada vez mais importante das cidades inteligentes (smart cities). E um pacote de gestão com parâmetros de smart cities é muito desejável, mas isso por si só não faz uma cidade sustentável.

O senhor afirma que o desenvolvimento urbano sustentável impõe o desafio de refazer as metrópoles contemporâneas, e não ocupar áreas distantes. Por quê?
Refazer a cidade ao invés de substituí-la é um fundamental parâmetro no desenvolvimento sustentável urbano. Nesse sentido, fazê-la se reinventar, fazê-la mais compacta, de modo qualificado junto das infraestruturas existentes é muito mais desejável do que expandir. Novas territorialidades são alternativas válidas como exceção, e não como a regra. É preciso buscar novos modelos de funcionamento, gestão e crescimento diferentes daqueles praticados principalmente no século 20, de “expansão com esgotamento”. A opção pelos parâmetros de cidades com grande densidade tem sido consenso internacional: o modelo de desenvolvimento urbano que otimiza o uso das infraestruturas urbanas — eficiência energética, melhor uso das águas e redução da poluição — promove relativamente altas densidades de modo qualificado, com adequado e planejado uso misto do solo, misturando as funções urbanas (habitação, comércio e serviços). Esse modelo é baseado num sistema de mobilidade urbana que conecte os núcleos adensados em rede, promovendo maior eficiência nos transportes públicos e gerando um desenho urbano que encoraje a caminhada e o ciclismo, além de novos formatos de carros (compactos, urbanos e de uso como serviço avançado). A população residente tem mais oportunidades para interação social, bem como uma melhor sensação de segurança pública, uma vez que se estabelece melhor o senso de comunidade — proximidade, usos mistos, calçadas e espaços de uso coletivo vivos — que induz à sociodiversidade territorial — uso democrático do espaço por diversos grupos de cidadãos. Metrópoles com bons sistemas de transporte público e que têm evitado o seu crescimento desmedido apresentam menores níveis de emissões de gases estufa por pessoa do que cidades que não têm. Cingapura, por exemplo, tem um quinto da população de carros per capita em comparação com cidades de outros países de elevado rendimento, mas também uma maior renda per capita. A maior parte das cidades europeias que têm altas densidades possui centros onde andar a pé e de bicicleta são meios de locomoção preferidos por grande parte da população. Um olhar mais atento para os fatores específicos que contribuem para a eficiência de carbono revela a dinâmica de como um determinado território compacto pode apresentar melhores indicadores ambientais, seja no meio rural, seja no modelo dos subúrbios. Dois fatores decisivos são a otimização dos recursos consumidos na cidade, incluindo a redução do consumo de energia associado a edifícios — aproveita-se a infraestrutura geral quando se tem concentrações edificadas — e transportes: territórios compactos geram maiores níveis de acessibilidade e permitem a redução da intensidade de viagens. Se nesse modelo de cidade compacta promovem-se densidades qualificadas — com uso misto do solo e multicentralidade ligadas por uma eficiente rede de mobilidade (transportes públicos eficientes, ciclovias e áreas adequadas ao pedestre) —, têm-se os ingredientes básicos para uma cidade sustentável. Finalmente, lembre-se de que qualquer cidade sustentável se desenvolve a partir de uma adequada, amigável e ponderada ligação entre o ambiente construído e a geografia natural. É fundamental respeitar as características geográficas do território e promover uma boa relação com as águas e as áreas verdes.

Por que as megacidades — densas, vivas e diversificadas nas áreas centrais — propiciam novas oportunidades de crescimento, gerando inovação e conhecimento?
As metrópoles são o locus da diversidade — da economia à ideologia, passando pela religião e cultura. E diversidade gera inovação. As maiores cidades do Hemisfério Norte descobriram isso há alguns anos e têm se beneficiado enormemente desse diferencial — inclusive com atração de investimentos — e promovido seus projetos de regeneração através de políticas de inovação. Centros urbanos diversificados, em termos de população e usos, com empresas ligadas à nova economia, têm se configurado nas novas oportunidades de inovação urbana em áreas anteriormente abandonadas. É o caso dos projetos Barcelona 22@ e San Francisco Mission Bay e de diversas áreas em Nova York, Boston e Londres. A capacidade de inovação se traduz em competitividade e prosperidade. Alguns parâmetros são fundamentais: presença da nova economia, sistema de mobilidade inteligente, ambientes criativos, recursos humanos de talento, habitação acessível e e-governance.

Qual é a importância do Poder Público e da sociedade para a regeneração urbana sustentável?
É preciso serviços de governo mais inteligentes, ágeis, transparentes e eficientes, através de compartilhamento de informações (transporte, energia, saúde, segurança pública e educação). Mas cada vez mais se busca ir além dos governos e construir novas instâncias de governança junto à sociedade civil organizada. Como exemplo temos o movimento Bogotá Cómo Vamos, que ajudou muito na reinvenção da capital. Aqui no País se replica atualmente com os movimentos da Rede Social Brasileira Cidades Justas e Sustentáveis, composta por organizações apartidárias e inter-religiosas. Na essência, uma cidade sustentável e inteligente pressupõe sempre cidadãos partícipes. É a chamada cidade para as pessoas — e não para os carros, não para os condomínios fechados e distantes, não para a exclusão, etc. Nesse sentido, cidadãos em cidades mais conectadas, onde a TIC seja low tech e low cost é o ideal. É preciso observar que a gestão local dos prefeitos nunca foi tão importante — e a crescente importância das cidades sustentáveis só vem corroborar a cobrança sobre maior competência e menos corrupção de nossos políticos, que devem, no ideal, ser grandes Gestores de Cidades, como em Bogotá, Barcelona, Copenhague e Nova York. Uma boa iniciativa foi a de ACM Neto, que acaba de anunciar a Secretaria da Cidade Sustentável em Salvador.

E o papel dos setores da construção civil e imobiliário?
Dois setores extremamente relevantes para o desenvolvimento urbano sustentável são o da construção civil e o do mercado imobiliário. É fundamental que eles busquem se reinventar para caminhar para modelos mais sustentáveis. Essa busca engloba a construção e adoção de sistemas de indicadores de sustentabilidade em toda a cadeia produtiva: incorporação, desenvolvimento imobiliário, projeto, construção e uso/manutenção das edificações na cidade. E passa, sobretudo, pelo enorme desafio de verdadeiramente se reinventar o modelo. A construção civil no País urge adotar, não como exceção, mas como regra, sistemas industrializados de construção, transformando obras em montagens, mais limpas, rápidas e eficientes. Vale para as obras edificadas em geral e é fundamental para a promoção de habitação coletiva em larga escala. É notório que o Brasil atual pode em poucos anos vencer seu ainda enorme déficit habitacional (algo em torno de 7 milhões de unidades em 2010), desde que adote sistemas inteligentes de construção habitacional industrializada, pré-moldada, com tecnologias recentes e mão de obra qualificada. Ou seja, é possível e desejável que se busque parâmetros de um design massivo para resolver rapidamente e com soluções de design e arquitetura de qualidade. Quanto ao mercado imobiliário, está evidente que o setor precisa aproveitar a oportunidade do boom atual e alavancar uma reinvenção de seus modelos de incorporação. A sociedade anseia pelo resgate de modelos imobiliários — seja residencial, seja comercial e de serviços — que construam cidades de verdade, menos estanques, com a desejável sociodiversidade territorial. Se a classe média brasileira viaja para o exterior para apreciar a qualidade da vida urbana de cidades que possuem ampla sociodiversidade territorial, como Barcelona, Paris, Londres, Nova York, São Francisco ou Vancouver, é dever do setor imobiliário promover o mesmo por aqui: menos condomínios residenciais fechados e distantes entremeados por imensos shopping centers fechados e mais vida urbana, como se tem em bairros valorizados e queridos, como Copacabana e Ipanema, no Rio de Janeiro, e Higienópolis ou Vila Madalena, em São Paulo. Um agente fundamental para a promoção da sustentabilidade nas cidades é o indivíduo presente no setor da construção, por seu papel como planejador, construtor e, por vezes, gestor de espaços urbanos. Daí a necessidade de suas empresas se alinharem com os princípios da sustentabilidade.

O senhor acredita que o futuro será de cidades inteligentes, cidades sustentáveis?
Totalmente. Vivemos o Século das Cidades. É nelas que o planeta tão populoso está cada vez mais escolhendo viver, é nelas que se gera inovação e vida inteligente. As cidades, no século 21, são o elemento-chave para o desenvolvimento sustentável global.