Tião Santos – Lixo Não Existe

Construir Nordeste 20/01/2015

De catador de recicláveis num lixão ao tapete vermelho do Oscar, Tião Santos agora lança livro e milita em favor de uma economia sustentável. “O que é lixo de fato?”, pergunta Tião Santos, depois de mostrar como as 240 mil toneladas de resíduos geradas por dia no Brasil podem ser reaproveitadas. Ele cita Lavoisier para justificar a defesa da coleta seletiva: “Nada se perde, tudo se transforma”. A vida desse carioca de 35 anos começou a se transformar em 2007, quando o artista plástico Vik Muniz, famoso por suas obras feitas com materiais inusitados, decidiu retratar a vida dos trabalhadores do Jardim Gramacho, então o maior aterro sanitário da América Latina, localizado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A matéria-prima era abundante: o lixo. Tião já era presidente da Associação dos Catadores e se tornou um dos principais personagens do documentário ‘Lixo Extraordinário’. Foi a Londres ver o quadro que inspirou e pisou no tapete vermelho de Hollywood, quando o filme foi indicado ao Oscar, em 2011. O lixão do Jardim Gramacho foi desativado, mas Tião continua sendo líder dos catadores e agora milita por investimentos no bairro e pela construção de uma economia sustentável. No início de novembro, ele lançou um livro para contar sua história de vida: ‘Tião – Do lixo ao Oscar’ (Ed. Leya), escrito com a jornalista Carolina Drago.

 

A sua história já ficou bastante conhecida, até mundialmente, com o filme Lixo Extraordinário. Por que decidiu escrever o livro Tião – Do lixo ao Oscar?

A ideia de escrever o livro foi para contar a minha trajetória de vida. O filme mostra um pedaço pequeno dessa história, a história do Tião Santos, catador. Mas eu costumo dizer que sou tripolar: sou Sebastião Carlos dos Santos, filho da dona Gerusa e do seu Carlos. E sou Tião, irmão do Nilson, da Glória, da Clara, da Simone, da Cristiana, amigo dos meus vizinhos. Eu sou essas pessoas e também sou o Tião Santos do filme e achava importante que os outros pudessem conhecer mais, para entender como fui nascido e criado e como cheguei até o Oscar.

 

Em que momento surgiu a ideia de criar a associação dos catadores?

A gente já vinha militando no movimento nacional de catadores há um bom tempo e articulando frentes para melhoria das nossas condições de trabalho. Foi uma consequência natural, nós já nos reuníamos para discutir essas coisas e decidimos criar uma associação para mostrar que não haveria diferenciação entre o catador da cooperativa, o catador do depósito ou o da fábrica. A luta era a mesma para todos.

O que mudou no Jardim Gramacho desde o filme?

O lixão foi finalmente fechado, em 2012, e os catadores foram indenizados por causa desse fechamento. O filme não teve o poder de criar a política pública, mas ele conseguiu comover, mobilizar, sensibilizar a sociedade a reconhecer e valorizar o papel dos catadores. O grande feito do filme foi humanizar esse trabalho e mostrar o quanto ele é importante. Do outro lado, o nosso papel foi — e continua sendo — cobrar, das autoridades, políticas de inclusão social e econômica para os catadores. A nossa sociedade ainda é muito desigual, não só joga fora aquilo que supostamente ela acha que é lixo, mas também as pessoas que se relacionam com ele. O Vik conseguiu mostrar isso. Depois do filme, as pessoas passaram a olhar para o Jardim Gramacho, que ficou abandonado durante 35 anos, não só pelo poder público, mas pela sociedade como um todo. Aqui era um lugar esquecido.

 

Qual foi o impacto do fechamento do lixão para a comunidade?

Inicialmente foi muito alto, porque durante 35 anos ele foi a principal fonte de renda da maior parte dos moradores de Gramacho. O aterro gerava 1.700 empregos diretos e quase 15 mil indiretos. Havia depósitos e fábricas de processamento do material que empregavam de 20 a 50 pessoas. Grande parte disso foi desativado. Agora nós estamos buscando alternativas para uma nova economia local, não só por meio de um polo de reciclagem que inauguramos e das empresas que ainda estão lá, mas principalmente de investimentos em capacitação e qualificação dos catadores, para que se tenha um trabalho mais humanizado, profissionalizado e melhor remunerado. E também estamos tentando atrair novas empresas para o bairro, que tem grandes vantagens do ponto de vista da logística.

 

O bairro já começou a mudar?

Claro que, mesmo depois do fechamento do lixão, ainda há muita coisa a ser feita. Não dá pra mudar 35 anos de miséria em 2 anos. Mas as coisas estão caminhando, formamos um polo de reciclagem, para quem queria continuar sendo catador, porque muita gente gosta e tem orgulho de ser catador, e vai haver um processo de reconstrução do bairro, que vai desde a construção de casas até o investimento em saneamento básico, educação e saúde. É um processo de médio e longo prazo.

 

Na sua opinião, qual o grande mérito do filme?

O grande trunfo do filme foi, literalmente, tirar o lixo debaixo do tapete. Tanto o lixo de verdade, os resíduos, como aquilo considerado pela sociedade como um “lixo humano”. O Vik teve a sensibilidade e a humildade de conhecer e ver o valor das pessoas. Ele deu visibilidade a uma luta que já existia, mas que precisava desse foco de luz. O que mais impressionou o Vik foi que ele não encontrou aqui nada do que ele pensava e que muitas pessoas imaginavam. Ele conseguiu desmistificar a figura desumana que se tinha dos catadores, a do sujeito desocupado, que não quer nada na vida, do mendigo, do homem do saco, que mata e sequestra crianças. Ele mostrou o trabalhador, a trabalhadora, o pai, a mãe de família, que, vivendo nessa sociedade extremamente excludente e desigual, consegue construir a sua vida de forma honesta e digna.

Essa visão sobre o catador começou a mudar?

Acredito que sim. As pessoas ainda falam “catador de lixo”, mas fico contente quando vejo reportagens, por exemplo, falando em “catador de material reciclado”. A mudança de atitude vem aos poucos, com educação. As pessoas passam a tratar o catador mais dignamente, a valorizar esse trabalho e a entender que nem tudo que a gente produz é lixo.

 

Por que catador de material reciclável, e não catador de lixo?

O jornalista tem um valor na sociedade por levar a informação a quem precisa, o médico tem o seu valor por salvar vidas. E o catador que recolhe lixo serve para que, se lixo não serve para nada? Ser catador de lixo é ser tão lixo quanto o próprio lixo. Ser catador de material reciclável é diferente, porque o material reciclável é um insumo, que vai ser transformado numa matéria-prima, que será transformada em um novo produto. No mundo da sustentabilidade e da escassez de recursos naturais, isso tem muito valor: valor social, econômico e ambiental — o que muda a forma como se enxerga o trabalhador. O meu trabalho traz benefício, não só material para mim, mas para toda a sociedade. E, quando a sociedade é educada, sensibilizada, mobilizada, ela responde. Uma caminhada de 100.000 km só começa com o primeiro passo.

 

O que falta para a cultura da coleta seletiva pegar no Brasil?

Um bom começo é parar de discutir o supérfluo ao invés de falar do essencial. Por exemplo, deixar de tratar as sacolinhas plásticas dos supermercados como as grandes vilãs e falar do setor de embalagens. Dentro da complexidade desse problema, a sacolinha é apenas um dos fatores. Quantas embalagens de produtos não são colocadas dentro das sacolinhas? Pra onde vão essas embalagens? É preciso discutir a coleta seletiva como um avanço de cidadania. Colocar essa questão da coleta e da reciclagem dentro das escolas, fazer mais campanhas de conscientização.
Como fazer essa conscientização?

As pessoas precisam entender que a minha latinha de alumínio só vira lixo quando se coloca tudo misturado no meio da rua. Ela só gera impacto social, ambiental e econômico negativo quando tem um destino equivocado. Quando ela é destinada para reciclagem, ela gera trabalho, renda, cidadania e inclusão social, preserva o meio ambiente e os recursos naturais que são escassos. Infelizmente, no Brasil, reciclagem ainda é coisa de gente pobre. Nos países desenvolvidos, é coisa de gente avançada, inteligente. Já dizia Lavoisier, na vida nada se perde, tudo se transforma. Somos capazes de transformar. O Vik me ensinou isso, quando disse que poderia transformar em arte aquilo que eu também só conhecia como lixo. Eu duvidei dele, e ele me mostrou. Das 240 mil toneladas de lixo que nós produzimos por dia no Brasil, de 35% a 40% é material potencialmente reciclável. Outros 45% são material orgânico que pode ser usado para compostagem. O que sobra, no máximo 20%, são rejeitos que também podem ser aproveitados na geração de energia. Ou seja, o que é lixo de fato?